Ticket médio, margem e inadimplência: como analisar esses números na clínica?

Gestoras analisam ticket médio, margem e inadimplência para entender a saúde financeira da clínica.

Ticket médio, margem e inadimplência: como analisar esses números na clínica?

Acompanhar ticket médio, margem e inadimplência ajuda a clínica a entender melhor o que existe por trás do faturamento.

Uma clínica pode aumentar o número de atendimentos e, ainda assim, ganhar menos. Também pode elevar o preço dos procedimentos, mas enfrentar dificuldades de caixa porque parte dos pacientes não paga no prazo.

Por isso, esses três indicadores devem ser analisados em conjunto.

O objetivo não é criar relatórios complexos. Pelo contrário: é transformar números simples em respostas para perguntas importantes, como “estamos vendendo melhor?”, “quanto realmente sobra?” e “quanto do que vendemos ainda não recebemos?”

1. O que o ticket médio mostra?

O ticket médio indica quanto, em média, cada atendimento gera de faturamento.

A fórmula é simples:

Ticket médio = faturamento ÷ número de atendimentos

Imagine uma clínica que realizou 300 atendimentos e faturou R$ 90.000,00.

Nesse caso:

R$ 90.000,00 ÷ 300 = R$ 300,00

O ticket médio foi de R$ 300,00 por atendimento.

Esse número ajuda a acompanhar mudanças no perfil da operação.

Por exemplo, se no mês seguinte a clínica realizar 330 atendimentos e faturar R$ 92.400,00, o ticket será:

R$ 92.400,00 ÷ 330 = R$ 280,00

Embora o faturamento tenha aumentado, o valor médio por atendimento caiu.

Isso é necessariamente ruim? Não.

A clínica pode ter aumentado o número de consultas de menor valor, criado uma estratégia de entrada para novos pacientes ou alterado o mix de procedimentos.

Por isso, ticket médio precisa de contexto.

Ticket médio maior também não significa lucro maior

Agora imagine outra situação.

Uma clínica aumenta o ticket médio de R$ 300,00 para R$ 450,00 porque passou a realizar procedimentos de maior valor.

À primeira vista, isso parece excelente.

No entanto, esses procedimentos também podem exigir:

  • mais materiais;
  • mais tempo de sala;
  • profissionais auxiliares;
  • equipamentos específicos;
  • maiores taxas de cartão.

Consequentemente, o ticket aumentou, mas a margem pode permanecer igual ou até diminuir.

Por isso, não analise o ticket médio isoladamente.

2. O que a margem mostra?

A margem ajuda a entender quanto do faturamento permanece depois dos custos e despesas considerados na análise.

De forma simplificada:

Margem = resultado ÷ faturamento × 100

Imagine:

Faturamento: R$ 100.000,00
Resultado: R$ 20.000,00

Nesse caso:

R$ 20.000,00 ÷ R$ 100.000,00 × 100 = 20%

Agora considere o mês seguinte:

Faturamento: R$ 120.000,00
Resultado: R$ 18.000,00

A margem cairia para:

R$ 18.000,00 ÷ R$ 120.000,00 × 100 = 15%

Portanto, a clínica faturou R$ 20.000,00 a mais, mas terminou o período com um resultado menor.

Essa comparação mostra por que faturamento e desempenho financeiro não são sinônimos.

A contabilidade utiliza demonstrações como a Demonstração do Resultado para organizar receitas e despesas e evidenciar o desempenho da empresa. As regras contábeis aplicáveis às pequenas empresas podem ser consultadas nas normas publicadas pelo Conselho Federal de Contabilidade.

Por que a margem pode cair?

Quando o faturamento cresce e a margem diminui, a gestão precisa investigar.

Entre as possíveis causas estão:

  • materiais mais caros;
  • aumento da folha;
  • descontos excessivos;
  • procedimentos pouco rentáveis;
  • taxas financeiras maiores;
  • mais horas ociosas;
  • aumento de despesas fixas;
  • preços sem reajuste adequado.

Além disso, um serviço pode apresentar margem diferente de outro.

Por isso, quando possível, vale analisar os principais procedimentos separadamente.

Imagine:

Procedimento A

Preço: R$ 800,00
Custos e despesas relacionados: R$ 600,00
Resultado estimado: R$ 200,00

Procedimento B

Preço: R$ 500,00
Custos e despesas relacionados: R$ 250,00
Resultado estimado: R$ 250,00

Embora o procedimento A tenha um preço maior, o procedimento B deixa um resultado maior nesse exemplo.

Portanto, preço alto não garante boa margem.

3. O que a inadimplência mostra?

A inadimplência indica quanto a clínica deveria ter recebido, mas ainda permanece vencido.

Imagine que pacientes particulares deveriam pagar R$ 30.000,00 durante o mês.

Entretanto, R$ 3.000,00 continuam em atraso.

Nesse exemplo:

R$ 3.000,00 ÷ R$ 30.000,00 × 100 = 10%

A inadimplência seria de 10% sobre aquele conjunto de valores analisados.

No entanto, não acompanhe apenas o percentual.

Também observe o valor em reais.

Uma inadimplência de R$ 5.000,00 tem um peso muito diferente em uma clínica que recebe R$ 40.000,00 por mês e em outra que recebe R$ 400.000,00.

Por isso, acompanhe:

  • valor total vencido;
  • percentual de inadimplência;
  • quantidade de pacientes em atraso;
  • tempo médio do atraso.

Além disso, vale separar os valores por faixa:

  • até 30 dias;
  • de 31 a 60 dias;
  • de 61 a 90 dias;
  • acima de 90 dias.

Dessa forma, a gestão consegue identificar quais pendências exigem mais atenção.

Inadimplência não é a mesma coisa que glosa

Para clínicas que trabalham com convênios, essa diferença é importante.

Inadimplência está relacionada a valores que deveriam ter sido pagos e permanecem vencidos.

Já a glosa ocorre quando a operadora não reconhece integralmente determinado valor apresentado pelo prestador.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar acompanha informações de valores pagos e glosados e disponibiliza dados específicos sobre esses indicadores no setor. A consulta pode ser feita por meio do Painel de Indicadores de Glosa da ANS.

Além disso, a ANS determina que contratos entre operadoras e prestadores estabeleçam procedimentos e prazos para faturamento, pagamento e contestação de glosas. Essas orientações estão disponíveis na página sobre faturamento e pagamento dos serviços prestados.

Portanto, mantenha os dois indicadores separados.

O que acontece quando analisamos os três juntos?

É aqui que ticket médio, margem e inadimplência começam a gerar informações realmente úteis.

Ticket médio aumentou, mas a margem caiu

A clínica pode estar vendendo serviços mais caros, porém com custos proporcionalmente maiores.

Nesse caso, vale revisar a rentabilidade dos procedimentos.

Ticket médio caiu, mas a margem aumentou

Isso pode acontecer quando a clínica aumenta o volume de serviços mais simples e rentáveis ou reduz custos.

Portanto, a queda do ticket não é automaticamente negativa.

Margem está boa, mas falta caixa

Talvez o problema esteja nos prazos de recebimento ou na inadimplência.

Nesse caso, vender mais também pode aumentar a necessidade de capital de giro.

Faturamento cresceu e inadimplência também

A clínica está vendendo mais, mas uma parcela crescente desse faturamento ainda não virou dinheiro.

Por isso, o crescimento precisa ser acompanhado pela qualidade dos recebimentos.

Existe um ticket ou margem ideal?

Não existe um número universal.

Uma clínica odontológica, um consultório médico e uma clínica de exames podem ter estruturas completamente diferentes.

Da mesma forma, especialidade, região, equipe, equipamentos e modelo de atendimento alteram os custos.

Por isso, o indicador mais útil é muitas vezes a evolução da própria clínica.

Compare:

  • mês atual x mês anterior;
  • trimestre atual x trimestre anterior;
  • mesmo período de anos diferentes;
  • realizado x meta.

Assim, a gestão consegue perceber tendências antes de transformar um número isolado em uma conclusão.

Crie um painel financeiro simples

A clínica não precisa começar com dezenas de indicadores.

Um painel mensal pode conter:

Indicador Mês atual Mês anterior
Faturamento R$ 100.000,00 R$ 95.000,00
Ticket médio R$ 320,00 R$ 310,00
Margem 18% 20%
Valores vencidos R$ 4.500,00 R$ 3.000,00

Nesse exemplo, o faturamento e o ticket cresceram.

No entanto, a margem caiu e os valores vencidos aumentaram.

Portanto, olhar somente o faturamento poderia levar a uma interpretação otimista demais.

Checklist rápido

  • calcular o ticket médio mensal;

  • acompanhar a margem;

  • registrar valores vencidos;

  • separar inadimplência de glosas;

  • comparar com meses anteriores;

  • analisar os indicadores em conjunto;

  • investigar variações relevantes;

  • evitar decisões baseadas apenas no faturamento.

FAQ

Ticket médio alto é sempre positivo?

Não. O ideal é avaliar também os custos e a margem dos serviços vendidos.

Qual margem uma clínica deve ter?

Não existe um percentual válido para todas as clínicas. A margem depende da estrutura, especialidade, preços, custos e modelo de operação.

Quando a inadimplência começa a ser preocupante?

Não existe um percentual único. O sinal de alerta aparece quando os atrasos crescem de forma recorrente, comprometem o fluxo de caixa ou ficam acima do padrão histórico da própria clínica.

Conclusão

Acompanhar ticket médio, margem e inadimplência permite enxergar aspectos diferentes da operação.

O ticket mostra quanto cada atendimento gera, em média. A margem indica quanto o faturamento contribui para o resultado. Já a inadimplência mostra quanto dinheiro esperado ainda não chegou.

Por isso, nenhum desses indicadores deve ser analisado sozinho.

Quando a clínica acompanha a evolução dos três e investiga as variações, passa a tomar decisões com uma visão muito mais completa do negócio.

A SECOB pode apoiar sua clínica na organização dos indicadores financeiros e na interpretação dos números para decisões mais claras, seguras e conscientes.

Fontes oficiais utilizadas

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